A gastronomia sul‑americana compartilha muitos ingredientes nativos, mas cada país usa esses elementos do seu próprio jeito. O Chile transforma o milho em pratos como pastel de choclo, enquanto no Brasil ele vira pamonha, curau ou farinhas regionais. O mesmo acontece com outras matérias-primas. Que tal descobrir receitas que podem dar um bom intercâmbio de sabores entre Brasil e Chile?

Aqui você vai ver:

As bases alimentares do Brasil e do Chile

Quando a gente olha para um prato típico, dificilmente imagina que ali está condensada uma história de séculos. Ingredientes como mandioca, milho, feijões, batatas e temperos são o resultado direto da relação entre território e cultura. No Brasil e no Chile, essa base alimentar revela dois caminhos diferentes dentro de uma mesma origem: a herança indígena das Américas.

Brasil e suas raízes

No Brasil, a alimentação tem como base a mandioca. Muito antes da chegada dos europeus, os povos indígenas já dominavam técnicas sofisticadas de cultivo e processamento desse ingrediente. A mandioca, também chamada de macaxeira ou aipim continua sendo consumida frita, cozida ou assada e transformada em farinhas, beiju ou tapioca.

O pesquisador Luís da Câmara Cascudo descreve a mandioca como a verdadeira espinha dorsal da alimentação brasileira, presente de norte a sul, em diferentes formas e com diferentes nomes.

Já na América do sul, de forma geral, segundo a FAO (ONU), o milho foi um dos pilares alimentares das Américas pré-colombianas, e continua sendo fundamental até hoje. No Brasil, juntamente com a mandioca, o milho também ocupa um papel essencial. Ele se espalhou por todo o território e deu origem a preparações que fazem parte da memória afetiva brasileira e das festas típicas: pamonha, canjica, cuscuz, curau.

Chile: um menu colorido

Se no Brasil a mandioca está para o ingrediente-base, no Chile quem faz esse papel é o milho, especialmente na região central e nas áreas influenciadas pela cultura andina.

O milho marca presença em receitas icônicas da culinária chilena, como o pastel de choclo e a humita.

Ao lado do milho, a batata ocupa um lugar igualmente importante. A região sul do Chile é reconhecida como um dos centros de origem da batata no mundo, com uma diversidade impressionante de variedades. De acordo com a FAO, essa biodiversidade é resultado direto da domesticação ancestral feita por povos andinos, que desenvolveram técnicas agrícolas adaptadas ao clima e à geografia da região.

Parecidos, mas diferentes

Além dos milhos e das batatas, as leguminosas também são muito consumidas pelos chilenos, com destaque para os feijões. Enquanto no Brasil o arroz e feijão estão presentes quase que diariamente na mesa dos brasileiros, no Chile costumam ser associados a pratos mais específicos e preparos especiais.

Outra diferença entre Brasil e Chile na cozinha está no uso de temperos. Neste ponto, a cozinha chilena tende a ser mais direta: alho, cebola, cominho e coentro aparecem com frequência, mas sem a intensidade aromática típica do Brasil. Um destaque especial é o merkén, uma pimenta defumada de origem mapuche que traz profundidade e identidade ao sabor chileno.

Já no Brasil, o tempero é o charme da culinária nacional e o alho frito ou a cebola frita estão presentes em praticamente todos os refogados. Em cada região, os temperos se destacam de forma diferente: o tucupi no norte, o alho frito no feijão do sudeste, o coentro e o dendê das comidas baianas. Não faltam ingredientes regionais!

Receitas brasileiras com gostinho do Chile

Se você quer fazer uma viagem para o Chile sem precisar sair de casa, uma boa opção é conhecer os vinhos chilenos, visto que o país é um dos principais representantes do Novo Mundo quando o assunto é produção de vinhos de qualidade.

Outra opção é apreciar esses deliciosos vinhos com receitas que, apesar de brasileiras, lembram o estilo da gastronomia chilena, fazendo um verdadeiro intercâmbio cultural. Preparado para essa viagem? Salve as receitas e aproveite para baixar o catálogo de vinhos de outono, com seleção de vinhos do mundo todo, incluindo, sem dúvidas, chilenos especiais para a estação.

Vaca atolada com costela bovina

Você conhece a cazuela chilena? São cortes de carne mais rústicos cozidos lentamente com batata ou abóbora. No Brasil, um prato muito parecido é a “vaca atolada”, utilizando mandioca no lugar das batatas (ou da abóbora).

As duas receitas apostam no caldo espesso e no sabor construído aos poucos, mas cada uma carrega o sotaque do seu território: a vaca atolada ganha cremosidade da mandioca que se desfaz, enquanto a cazuela preserva pedaços inteiros de legumes. No fim, são pratos irmãos, unidos pela mesma alma de comida caseira.

E não tem como pensar em comida chilena sem acompanhar um bom vinho, que no caso da “vaca atolada” pode ser um clássico carménère, como o Gran Canto Andino Carménère, que vai bem com pratos untuosos, sem tirar o brilho da receita.

Ingredientes

  • 1,5 kg de costela bovina em pedaços
  • 1 kg de aipim (mandioca) descascado e em pedaços
  • 200 g de cebola picada
  • 20 g de alho picado (cerca de 4 dentes)
  • 1 tomate picado
  • 50 g de extrato de tomate
  • 50 ml de azeite
  • 1,5 litro de água
  • Sal a gosto
  • Pimenta‑do‑reino a gosto
  • 10 g de colorau
  • Cheiro‑verde picado
  • 2 folhas de louro

Modo de preparo

  • Selar a costela: aqueça o azeite na panela de pressão. Doure bem a costela para intensificar o sabor.
  • Refogar os temperos: acrescente a cebola e refogue até ficar transparente. Adicione o alho, o tomate, o extrato de tomate e o colorau. Misture bem.
  • Cozinhar a carne: coloque a água, o louro, sal e pimenta. Tampe a panela e cozinhe por cerca de 40 minutos após pegar pressão.
  • Adicionar o aipim: abra a panela, coloque o aipim em pedaços. Volte à pressão por mais 10 a 15 minutos. Verifique se o aipim está macio e começando a desmanchar.
  • Finalizar: ajuste o sal. Finalize com cheiro‑verde picado. Deixe o caldo engrossar naturalmente com a mandioca.

Escondidinho de carne

O escondidinho brasileiro e o pastel de choclo chileno são pratos que nasceram da mesma alma culinária latino‑americana: comida de conforto, com recheio e em camadas. No Brasil, o purê de mandioca vai sobre carne; no Chile, é utilizado o milho moído.

Para combinar com um bom escondidinho de carne, o vinho tinto Red Blend Dingui Odfjell é a dica do Expert Claudio Pinto. Uma boa opção para acompanhar carnes assadas, pratos à base de molhos encorpados e queijos curados.

Ingredientes (rende 10 porções)

  • 1,5 kg de carne moída (ou carne cozida desfiada)
  • 2 cebolas picadas
  • 2 cenouras picadas
  • 2 dentes de alho
  • 50 g de manteiga
  • 2 colheres de sopa de extrato de tomate
  • 200 ml de caldo de carne
  • Sal, pimenta e tomilho

Ingredientes para o purê

  • 2 kg de batatas
  • 200 ml de leite
  • 80 g de manteiga
  • Sal e noz-moscada

Finalização

  • Queijo ralado
  • Farinha de rosca

Modo de preparo

  1. Carne: refogar cebola, cenoura e alho na manteiga. Adicionar a carne e dourar bem. Acrescentar extrato de tomate, caldo e tomilho. Cozinhar por 20 minutos (carne úmida).
  2. Purê: cozinhar as batatas até ficarem macias. Amassar e misturar leite quente + manteiga. Temperar com sal e noz-moscada. Manter textura cremosa.
  3. Montagem: colocar camada de carne na travessa. Cobrir com o purê. Alisar a superfície. Finalizar com queijo ralado e farinha de rosca.
  4. Assar no forno a 180°C por 25–30 minutos. Retirar quando estiver dourado.

Pastel de forno

O pastel de forno é o “primo” brasileiro da empanada chilena. A empanada, especialmente a versão de pino, possui massa firme, recheada com carne picada, cebola bem dourada, cominho, ovo cozido e azeitona. Já o pastel de forno brasileiro é mais leve, com massa mais macia e tem mais “cara de lanche”.

Quer fazer um pastel de forno em casa? Anote a receita do Chef André Migão e acerte na recepção para os convidados complementando com um vinho chileno Pinot Noir, como o Reserva Payador.

Ingredientes para a massa

  • 600 g de farinha de trigo
  • 3 colheres de sopa de manteiga ou margarina
  • 1 ovo
  • 1/2 xícara de leite
  • 1 colher de chá de sal
  • 1 gema (para pincelar)

Ingredientes para o recheio (carne)

  • 300 g de carne moída
  • 1/2 cebola picada
  • 2 dentes de alho picados
  • 1 tomate picado
  • Sal e pimenta a gosto
  • Cheiro-verde a gosto

Modo de preparo

  1. Massa e descanso: misture a farinha com o sal, incorpore a manteiga até formar uma farofa e adicione o ovo com o leite aos poucos, trabalhando a massa até ficar lisa. Sove levemente e deixe descansar por 15 a 20 minutos.
  2. Recheio e preparo prévio: refogue a cebola e o alho, acrescente a carne moída e cozinhe bem. Junte o tomate e os temperos, mantendo o recheio sequinho. Deixe esfriar completamente antes de montar os pastéis.
  3. Montagem e fechamento: abra a massa em superfície enfarinhada, corte círculos, coloque o recheio no centro e feche como pastel, pressionando as bordas com um garfo para selar.
  4. Finalização no forno: disponha os pastéis em assadeira untada ou forrada com papel manteiga, pincele com gema e asse em forno pré-aquecido a 180 °C por 25 a 30 minutos, até dourarem.

Para conhecer mais sobre o Chile

Se você já conseguiu sentir um pouco do sabor do Chile mesmo sem sair de casa, está na hora de conhecer mais sobre esse país rico em variedades de paisagens, climas e belezas naturais. Além de toda a geografia privilegiada, o país é um símbolo da vitivinicultura mundial e conquista também pelo paladar.

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